AZAGUA

Acrílico sobre tela, panu di terra colado,140cm x 220cm

* por Filinto Elísio

Identidade. Crioulidade. Interioridade. Insularidade. Diasporicidade. A Nação Cabo-verdiana. Ancestral. Profunda. Revisitação e nostalgia do tempo vivificado. Visão de futuro. A arte e o artesanato, irmanados no genesíaco e no apolíneo. Escravatura, resistência e libertação. Estiagem e fome. Chuva e fartura. Multiplicaríamos tais conceitos e as suas polissemias, muito para além da compreensão fascinante que rege e imanta a fenomenologia plástica desta mostra de pintura, intitulada “AZAGUA”, do pintor Miguel Levy Lima.

“AZAGUA”, com rigor construtivista no pincelar do Batuco, uma das expressões artístico-culturais mais fundantes da Cultura Cabo-verdiana, transita por várias temáticas que cartografam o ser e estar no período de chuvas na ilha de Santiago, a maior e a mais populosa de Cabo Verde. A metalinguagem, exaurida em diferentes tons, matizes e cores dos panos-de-terra e na energia matriz e motriz das mulheres, é a verdadeira obsessão desta mostra, ocupando terreiro da sua tessitura criativa. Tudo isso, quanto a mim, significa a metonímia das chuvas em terra ardente como a mulher no torno da txabeta, o pano de bicho na sulada e o ondear das kaderas, o pampam ritmado e o refrão e o dilin coletivos do terreiro. Nada é tão chuva e tão falta dela. Nada é tão chão e tão além-chão.  

Cabe ao receptor, afinal leitor em lacto senso, desvendar mais e mais a linha dorsal destas obras expostas por Miguel Levy Lima,  – a medula transplantada em cada quadro desta mostra –, assim como as filigranas que ficam, umas vezes explícitas, outras vezes implícitas, linha condutora envolta de tão enigmático quão compósito contraste em luz/sombra, corpo/ alma, movimento/fixidez, telúrico/universal.

Aqui e agora, o selo marcante da profundidade, do conhecimento e do domínio da linguagem plástica.

Viva “AZAGUA”!

*Poeta cabo-verdiano

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